Caso Marielle: descontrolado, Bolsonaro acusa Witzel e ameaça a Globo


 É compreensível a fúria que tomou conta de Jair Bolsonaro com a reportagem que foi ao ar no Jornal Nacional na noite desta terça-feira. Mas é evidente que o presidente reagiu com o fígado, indo além do razoável. Explico: uma coisa é contestar a informação, criticar o vazamento de uma investigação, mostrar-se indignado. Outra, bem distinta, é ameaçar veículos de comunicação com retaliações. É a segunda vez que ele o faz em três dias. Aos fatos. No dia 14 de março do ano passado, os acusados pelo assassinato da vereadora do Rio Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes se encontraram no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, onde o presidente tem duas casas — em uma delas, mora o vereador Flávio Bolsonaro. Naquele dia, às 17h10, está no livro de registros, o ex-policial militar Élcio Queiroz entrou no condomínio dirigindo um carro Logan, placa AGH 8202. Ao porteiro, afirmou que iria à casa 58, onde morava o então deputado federal quando no Rio. Segundo o funcionário, alguém que ele identificou como "seu Jair" teria autorizado o ingresso de Queiroz. A entrada do carro e seu destino estão registrados no livro da portaria.

O ex-policial, no entanto, foi para a casa de número 66, onde morava Ronnie Lessa, sargento aposentado da PM. A dupla deixou o local no mesmo veículo minutos depois e, nas proximidades do condomínio, embarcou no Cobalt usado na operação que matou Marielle e Anderson. Segundo a apuração da polícia, Queiroz conduzia o carro, e Lessa deu os tiros.

Em depoimento à polícia, o porteiro afirma que, ao perceber que o carro se dirigira à casa 66, ele interfonou novamente para a 58, de Bolsonaro, e a pessoa identificada como "seu Jair" demonstrou ter ciência do fato.

"PATIFARIA"
Informado sobre a reportagem, o presidente gravou um vídeo, lá de Riad, na Arábia Saudita, em que afirmou:
"Eu soube quem era Marielle pela notícia de que ela morreu. Estava em Brasília, os registros mostram. Registrei no plenário às 17h41.  Não tenho nenhuma participação. Isso é uma patifaria. Ou o porteiro mentiu, ou o induziram a mentir".

Vamos lá. O que é inequívoco até aqui? O livro aponta o ingresso de Queiroz no condomínio e o destino anunciado: a casa de Bolsonaro. A marcação antecede os assassinatos, ocorridos por volta das 21h30 daquele dia, e não depende da memória do porteiro.

Se o porteiro falou duas vezes com alguém da casa 58, certamente não se tratava de Bolsonaro. De fato, ele estava na Câmara dos Deputados, com presença registrada por controle digital. Há vídeos que demonstram isso, o que foi evidenciado pelo Jornal Nacional.

O sistema de segurança, em tese, mantém gravadas as conversas entre a portaria e os moradores. A Polícia busca agora saber se houve mesmo contato com a casa 58 naquele dia.

WILSON WITZEL
Bolsonaro partiu para cima de Wilson Witzel, governador do Rio:
"Acabei de ver aqui na ficha que o senhor [Witzel] teria vazado esse processo que está em segredo de Justiça para a Globo. O senhor só se elegeu governador porque o senhor ficou o tempo todo colado no Flávio Bolsonaro, meu filho. (…) Deixa muito claro que algo muito errado está neste processo. Eu gostaria de falar muito neste processo, conversar com esses delegados. Colocar em pratos limpos o que está acontecendo em meu nome. Por que querem me destruir? Por que essa sede pelo poder, senhor Witzel?".

GLOBO
O presidente também ameaçou a TV Globo:
"Vocês vão renovar a concessão em 2022. Não vou persegui-los, mas o processo vai estar limpo. Se o processo não estiver limpo, legal, não tem renovação da concessão de vocês, e de TV nenhuma. Vocês apostaram em me derrubar no primeiro ano e não conseguiram".

Foi além:
"Parem de trair o Brasil. Não estão traindo a mim, não. Estão traindo o Brasil. Não tem dinheiro público para vocês. Vão ficar me infernizando até quando?"

Ele também fez especulações sobre a legalidade da investigação:
"O que parece? Ou que o porteiro mentiu, ou que induziram o porteiro a cometer um falso testemunho, ou que escreveram algo no inquérito que o porteiro não leu e assinou na confiança. A intenção é sempre a mesma".

Reitere-se: se o porteiro falou com alguém, com Bolsonaro não foi porque estava em Brasília. O busílis está no registro do livro. Não havendo evidências de que é uma prova forjada, é preciso saber por que um dos acusados de duplo assassinato procurou a casa do agora presidente. E se alguém, no imóvel, autorizou a sua entrada.

Fonte: UOL - Reinaldo Azevedo